Uma coisa é certa e segura: à pala das redes sociais, mais concretamente do Facebook, o Courrier Internacional vendeu na sexta feira passada, pelo menos, mais um exemplar! Sim senhor: aquele que mora aqui na mesinha da minha sala, onde está poisado o computador XPTO em cujo teclado, escrevo esta opinião!
Quem aqui me lê já teve tempo de perceber que eu só me pronuncio quando a coisa é mesmo mesmo interessante, actual ou desafiante o bastante para me colocar o conjunto de neurónios 23 a funcionar. Bem sei que nunca vos expliquei os meus conjuntos de neurónios, mas isso agora não é relevante para o caso. O que importa a todo o momento e a toda a gente (até a mim, imagine-se!), são as virtuais redes sociais. Nelas ou por via delas, passa-se quase tudo o que é importante para os humanos nos dias de hoje, se não vejamos: Fazem-se negócios, engata-se gente, investiga-se tudo e mais um par de botas, cavam-se batatas, plantam-se rosas amarelas e beringelas num passe de mágica, enganam-se tolos por via de bolos e bolinhos e beijocas e abracinhos com sabor a água de malvas, tagarela-se... Essencialmente tagarela-se muito muito muito. Gasta-se o tempo que não se mede já, discutem-se as mil e uma séries que passam na televisão, canta-se o fado e toma-se chá com 500 pessoas de cada vez! E pronto, basicamente é isto! Ora bem, não fosse ter dito quase tudo, até eu me convencia que o melhor seria parar de ler imediatamente pela 3ª vez o livro “A Câmara Clara”, de Roland Barthes. Convencia-me de que não vale a pena perder tempo e gastar energia com leituras e menos ainda com reflexões, pois que elas não fazem parte dos mandamentos determinados e subscritos pelas redes sociais. Poderia convencer-me também de que os cerca de 130 “amigos” que constam da minha lista do Facebook, são realmente pessoas que conheço bem e vice versa, e que, numa aflição posso contar com todos eles. (Não creio que se morrer agora, todos estejam no meu funeral, mas aqui, admito que sou eu a destagarelar!). Consola-me saber que, pelo menos morreria dentro da média do que se considera ser, actualmente, alguém sociável e de boas relações. Já não é mau de todo, e assim como assim, a malta quando morre já não sabe para que lado é o norte. Portanto, quero lá saber quem é que vai ao funeral!
Justifica este palavreado todo, precisamente a célula: QUASE TUDO! Sem dúvida o Courrier de Abril mostra-se exímio a levantar um conjunto de questões, na minha opinião deveras prementes, acerca da realidade vivida actualmente por todos nós, via redes sociais virtuais. Mal comparando as coisas, diz Barthes (pág. 76, edições 70): “Dizer de uma foto «é quase ela»!, era para mim mais doloroso do que dizer de uma outra: «não é nada ela». O quase: regime atroz do amor, mas também estatuto decepcionante do sonho – a razão pela qual detesto os sonhos.” Escrevia ele sobre a fotografia. À época (c.1980), senhores como Barthes ainda perdiam tempo a pensar e a tentar construir novas teses de nomeação e compreensão sobre a realidade humana. Por isso mesmo, Amor e Intimidade ainda andavam a par, da mesma maneira que, Intimidade andava sobreposta à capacidade humana de reconhecer o outro, pelo tão bem e tão profundamente que nos preocupávamos em nos conhecermos a nós mesmos, e aos outros. Sensivelmente, na mesma altura, Amizade ainda queria dizer “poder contar com”. Sonho, ainda era, como se vê pela citação acima, alguma coisa de permeio entre o amor recíproco, o (re)conhecimento mútuo, e a capacidade de imaginar em conjunto com, alguma coisa da ordem da Intimidade.
Nada disto hoje em dia, quer dizer a mesma coisa! O que é que aconteceu? São as redes sociais que, de repente, sem a gente dar conta, mudaram os significados das palavras/categorias de vívido acima ditas. Além do mais, já é QUASE-POSSÍVEL fazer bebés pela internet, pari-los e amamentá-los. E também já é QUASE-POSSÍVEL dispensar o olhor dentro dos olhos de alguém para se dizer “Amo-te” (o facebook faz tudo isso por ti!!), da mesma maneira que, o som específico e especial do sorriso de cada um de nós acompanhado dos batimentos cardíacos tradutores do estado de enamoramento verdadeiro está QUASE-A-TORNAR-SE-NA-MAIOR-APLICAÇÃO—DE-SEMPRE!
Bem, desta me vou porque Roland Barthes ainda me ganha no interesse que tenho pela minha quintinha Farmville (que tá de gritos!!).
Até breve, para mais desenvolvimentos.
Manjerica.
domingo, 28 de março de 2010
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